Organizações que administram hospitais públicos conseguiram medir o impacto da pandemia nos custos de medicamentos

Quando a busca por atendimentos de Covid começou a crescer neste hospital de Florianópolis (vídeo), em abril de 2020, a direção quis aumentar os estoques de medicamentos e materiais, mas já encontrou barreiras. O hospital correu risco do desabastecimento.

“Os aventais, as próprias máscaras PFF2 e as luvas, também foram itens principais que faltaram no mercado e que nós tivemos que buscar fora. Assim como dos medicamentos que são utilizados durante a sedação, a manutenção do paciente em ventilação mecânica propriamente, bloqueadores neuromusculares, todos esses medicamentos específicos vieram a faltar no mercado nacional.”, informou Francisco Paiva, diretor-geral do Hospital Florianópolis.

Uma pesquisa encomendada pelo Instituto Brasileiro de Organizações Sociais da Saúde (Ibross), que administra hospitais públicos, avaliou o encarecimento de uma cesta com os principais itens utilizados no tratamento da doença. São medicamentos e materiais hospitalares, entre eles anestésicos sedativos e analgésicos, luvas e máscaras.

Logo no começo da pandemia, os preços dessa cesta subiram mais de 200%. A diferença em relação aos preços de antes da pandemia chegou a quase 300%, em abril do ano passado, muito acima da inflação acumulada, que foi de 15%.

O medicamento que mais subiu foi um sedativo usado para intubação de pacientes graves. Em pouco mais de um ano, de fevereiro de 2020 a junho de 2021, a ampola passou de R$ 2,22 (dois reais e vinte e dois centavos) para R$ 11,33 (onze reais e trinta e três centavos), cinco vezes mais cara. As máscaras cirúrgicas ficaram quatro vezes mais caras e as luvas três vezes.

O presidente do Ibross, Flávio Deulefeu, ressaltou que “o resultado do estudo materializa as dificuldades ocorridas na vida real dos hospitais”. Destaca ainda que “vivemos um momento em que a Covid-19 ainda não foi totalmente resolvida e os hospitais públicos estão cheios de pacientes com outras doenças graves que não foram tratadas nos piores meses da pandemia. Isso também aumenta os custos de saúde e exige que as instituições trabalhem com o máximo de eficiência”, conclui.

“O consumo aumentou enormemente – não só no Brasil, mas no mundo inteiro – e isso fez com que tivesse uma enorme demanda com a produção que continuava a mesma. Aí houve uma desproporção, um desbalanceamento, e isso fez com que os preços explodissem”, disse o Secretário Executivo do Ibross, Renilson Rehem.

Além disso, a forte dependência do setor de saúde brasileiro do mercado externo foi um agravante. Os preços negociados em dólar ficaram ainda mais pesados diante da desvalorização do real em 2020 e 2021.

“Há necessidade de avanço tecnológico do nosso país em vários aspectos, para que a gente seja mais independente no que diz respeito a itens tão necessários e essenciais à vida humana”, completou Paiva.

Apesar dos casos confirmados e de mortes por Covid-19 terem diminuído, os insumos levantados pela pesquisa não voltarão ao patamar pré-pandemia. Os medicamentos continuam 46% mais caros do que em fevereiro de 2020 e os materiais hospitalares 27%, e essa conta está chegando para a população.

“Aquela parcela menor da população que é usuária do sistema privado, do plano de saúde ou diretamente dos serviços privados de saúde, já está sentindo o impacto disso na elevação dos custos.  E aqueles que se utilizam exclusivamente do sistema público enfrentaram grandes dificuldades durante a pandemia em relação a outras assistências, principalmente cirurgias eletivas, que foram suspensas”, ponderou Rehem.

“Quem sofre com isso são os hospitais, em primeiro plano, mas sofre bastante com isso o setor público que gasta mais e a população que eventualmente deixa de receber serviços”, avaliou Sérgio de Freitas, especialista em Saúde Pública.

A associação das indústrias de insumos farmacêuticos declarou que o setor depende de fornecedores na China, na Índia ou de matérias-primas derivadas de petróleo. Disse que alguns itens ainda estão seis vezes mais caros do que antes da pandemia e que vai propor ao Ministério da Saúde uma política de compras públicas e de produção nacional, para reduzir a dependência dos importados.

Fonte: JORNAL NACIONAL/TV GLOBO/SÃO PAULO


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