Renilson Rehem: Organizações sociais e o papel do Estado

 

Em artigo publicado nesta quinta-feira, 15 de outubro, na Folha de S. Paulo, o presidente do Ibross, Renilson Rehem, faz uma análise sobre a Operação Raio-X e o cenário de desvios de recursos na Saúde. Para Rehem, o poder público deve melhorar mecanismos que impeçam, já no ato de qualificação, o ingresso de organizações criminosas.

Além disso, ele reforça que o Estado brasileiro deve valorizar as instituições filantrópicas verdadeiramente sérias e comprometidas com um SUS, banindo as entidades que enxergam no modelo uma oportunidade para fraudes e enriquecimento ilícito de seus dirigentes.

Leia aqui a publicação online e abaixo o texto na íntegra.

 

Organizações sociais e o papel do Estado

Mecanismos do poder público devem impedir ingresso de grupos criminosos

Renilson Rehem de Sousa
Médico sanitarista, é presidente do Ibross (Instituto Brasileiro das Organizações Sociais de Saúde)

Desde já, o Instituto Brasileiro das Organizações Sociais de Saúde (Ibross), que representa cerca de 20 Organizações Sociais de Saúde (OSS) presentes em nove estados, vem a público manifestar seu integral apoio à Operação Raio-X, deflagrada no último dia 29 de setembro pelo Ministério Público de São Paulo e pela Polícia Civil com a finalidade de combater a atuação de criminosos que desviavam recursos da área da saúde por meio de contratos firmados entre o poder público e ditas OSS.

De acordo com as investigações, há indícios de fraudes envolvendo o pagamento de propinas a agentes públicos para a celebração de contratos de gestão com as OSS, seja por meio de contratos superfaturados ou processos fraudulentos de escolha das entidades.

Infelizmente, nos últimos anos, temos observado o surgimento de instituições criminosas que, disfarçadas de organizações sociais, atacam os cofres públicos, desviando recursos que deveriam ser utilizados para o atendimento dos usuários dos serviços do SUS.

Lamentavelmente, no centro dessa discussão estão os processos de qualificação das organizações sociais e, posteriormente, da escolha dessas entidades para celebrar parcerias com o poder público. A corrupção é ato de quadrilhas disfarçadas de instituições filantrópicas, e não do modelo de Organizações Sociais de Saúde. Portanto, o poder público deve melhorar mecanismos que impeçam, já no ato de qualificação, o ingresso dessas organizações criminosas.

O poder público tem o dever de construir parcerias com organizações sérias e responsáveis, firmar contratos de gestão claros e transparentes, monitorar o trabalho executado e estabelecer as metas assistenciais e de qualidade a serem cumpridas pelas OSS. Tais resultados devem ser demonstrados mediante relatório de gestão que deve ser submetido ao crivo das secretarias de Saúde, com o apoio dos órgãos de controle.

O modelo de Organizações Sociais de Saúde foi implantado há mais de 20 anos, tendo como berço o estado de São Paulo, onde foram firmados os primeiros contratos para o gerenciamento de hospitais públicos, com entidades do terceiro setor sem fins lucrativos, reconhecidamente competentes e comprometidas com o SUS. Graças ao sucesso na gestão dessas entidades, essas parcerias foram estendidas para outros equipamentos e serviços públicos de saúde.

A premissa básica do modelo de OSS é a de que, por meio de parcerias entre o poder público e instituições filantrópicas, é possível oferecer um SUS de alta eficiência e qualidade comparável a grandes hospitais e serviços particulares de saúde. Tudo isso por meio de ferramentas privadas de gestão, permitindo maior agilidade na gestão de recursos humanos e na aquisição de medicamentos, insumos e equipamentos para as unidades públicas de saúde.

Atualmente as OSS estão presentes em 23 estados e no DF. O resultado, aferido por instituições como FGV e Banco Mundial, foi a maior produtividade com menores custos em relação a serviços administrados diretamente por estados e municípios. Além disso, diversas unidades de saúde geridas por organizações sociais mantêm selos de boa governança e segurança do paciente emitidos por instituições como a Organização Nacional de Acreditação (ONA) e Accreditation Canada, entre outras.

É imperioso, neste momento, que o Estado brasileiro valorize as instituições filantrópicas verdadeiramente sérias e comprometidas com um SUS mais fortalecido e humano —banindo as entidades que enxergam no modelo uma oportunidade para fraudes e enriquecimento ilícito de seus dirigentes.

É fundamental que os governos conheçam a história das instituições para poder firmar boas parcerias.
O Ibross, criado em 2015, tem como um de seus objetivos apoiar as secretarias municipais e estaduais de Saúde na qualificação das instituições parceiras, na formalização de contratos de gestão eficazes e no acompanhamento da execução dos contratos de gestão. É tarefa urgente e necessária separar o joio do trigo.


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