Levantamento da Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina (SPDM) mostra mais de 45 mil hospitalizações relacionadas ao transtorno entre 2021 e 2026; homens respondem por três em cada quatro internações e tempo médio de permanência chega a 29 dias
A dependência de cocaína segue impondo forte pressão sobre o sistema de saúde brasileiro. Levantamento realizado pela Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina (SPDM), com base em dados do Sistema de Informações Hospitalares do SUS (SIH-SUS) consolidados por meio da plataforma analítica da TechTrials, mostra que as internações relacionadas ao transtorno cresceram 19,8% nos últimos cinco anos e consumiram mais de R$ 41 milhões em recursos hospitalares da rede pública.
Entre abril de 2021 e março de 2026, o SUS registrou 45.433 internações associadas à dependência de cocaína, envolvendo 36.861 pacientes únicos. Os repasses hospitalares totalizaram R$ 41,2 milhões no período, com valor médio de R$ 906,40 por internação.
Os dados revelam ainda o caráter recorrente da dependência química. Embora tenham sido identificados 36.861 pacientes únicos, ocorreram mais de 45 mil internações, indicando que parte dos indivíduos necessitou de múltiplas hospitalizações ao longo do tratamento.
“O número de internações revela apenas a parcela mais grave dos casos que chegam ao sistema de saúde. A dependência de cocaína é uma condição crônica e frequentemente associada a recaídas, exigindo acompanhamento contínuo e uma rede assistencial estruturada”, afirma o psiquiatra Ronaldo Laranjeira, diretor-presidente da SPDM.
Outro dado que chama atenção é o tempo médio de permanência hospitalar, de 28,8 dias, refletindo a complexidade clínica desses pacientes e a necessidade de acompanhamento multiprofissional durante o tratamento.
As hospitalizações representam apenas uma parcela da carga assistencial relacionada à dependência de cocaína, uma vez que os registros não contemplam pacientes acompanhados em serviços ambulatoriais, Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) ou aqueles que não acessam os serviços de saúde.
A análise demográfica mostra predominância marcante do sexo masculino. Homens responderam por 74,2% das internações registradas no período, enquanto as mulheres representaram 25,8% dos casos.
Os gastos hospitalares apresentaram forte concentração geográfica. As regiões Sudeste e Sul responderam por mais de 90% dos valores registrados, concentrando respectivamente 47,5% e 42,6% dos gastos relacionados às internações por dependência de cocaína.
A análise também identificou importante demanda assistencial na saúde suplementar. Com base em dados da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), a SPDM verificou que, entre abril de 2021 e dezembro de 2024, os planos de saúde registraram 58.088 internações relacionadas à dependência de cocaína, com faturamento estimado em R$ 149,7 milhões e valor médio de R$ 2.576,52 por internação.
No mesmo período, o SUS registrou 32.952 internações, com repasses hospitalares de aproximadamente R$ 29,8 milhões e valor médio de R$ 903,07 por hospitalização. A comparação deve ser interpretada com cautela, já que os dois sistemas atendem populações distintas e operam sob modelos assistenciais e mecanismos de remuneração diferentes.
“As internações são apenas um dos componentes do impacto gerado pela dependência química. Os dados reforçam a necessidade de fortalecer políticas de prevenção, ampliar o acesso ao tratamento especializado e consolidar uma rede de cuidados capaz de acompanhar esses pacientes de forma contínua”, destaca Laranjeira.
Além dos impactos clínicos, a dependência de cocaína está associada à perda de vínculos familiares, dificuldades de inserção no mercado de trabalho, vulnerabilidade social e aumento do risco de morbidade e mortalidade.
